Sabe quando você pensa que algo não poderia acontecer novamente? Tipo, um raio não cai duas vezes no mesmo lugar, uma mãe nasceu pra ser mãe e por isso, é óbvio que gerará o segundo filho, não tem como cair de um precipício duas vezes, e etc.
Pois bem, descobri que a vida é mais injusta do que eu poderia imaginar, que não adianta ser forte, é preciso ser resiliente, e não desistir.
As vezes eu penso que o Universo ficou irritado comigo e decidiu me testar de alguma forma, mais eu sei que não sou tão especial a ponto de algo superior tirar a atenção de coisas como gerras e aquecimento global e olhar pra minha vida pacata e sem graça.
E por isso, que é tão difícil passar por toda essa dor, porque não existe nada além mais, não existe ninguém, nenhum super homem que venha me salvar. Então sinto como se estivesse me afogando em um poço sujo e fundo, e que não tem como eu me esgueirar pra subir.
Uma vez, estava escuro em minha casa, creio eu que não era queda de energia, talvez fosse os gatos que eram muito fracos, já que eu morava em favela. Existia em minha cozinha um poço bem fundo, porque não tínhamos água encanada no bairro, o saneamento básico estava em falta naquela época, e eu criava um cachorro viralata que era bem fofo, que gostava de ficar solto por aí. Neste dia, eu decidi ficar em casa e não ir a faculdade porque estava com cólica, e um amigo meu ficou comigo assistindo algum filme, e ai no meio daquela escuridão da lâmpada amarela ouvimos um barulho, ficamos agitados e assustados mais eu era do tipo bem corajosa, e fui lá na cozinha ver o que era.
Foi um barulho como que de um baque, alguém caiu, eu pensei logo no meu 🐕, e realmente era ele. Ele caiu no poço, estava muito escuro e ele nadava desesperado e eu estava vendo tudo e não sabia o que aconteceu, mais meu corpo se moveu sozinho, eu encontrei força e coragem naquele momento porque meu 🐕 poderia morrer... E sem pensar pulei dentro do poço!
Eu não sabia nadar, e por isso não tinha como eu sobreviver ali dentro e morrer afogada com o 🐕. Betoven nadou com tudo que tinha, enquanto eu me pendurei entre as paredes, como o homem aranha, ali agarradas as paredes eu peguei ele com o pé, e meu amigo me puxou.
Depois disso, fiquei pensando em muitos, e se...
E se, eu não tivesse ficado? E se, eu não tivesse tido cólica? E se, meu amigo não estive comigo? E se, a televisão estivesse mais alta?
O que seria de Betoven?
Por isso, neste dia eu comecei a acreditar em milagres.
Talvez nem fosse, foi uma ótima coincidência, talvez destino, se não fosse naquele momento e dentro daquela configuração, ser aque meu cachorro sobreviveria até ser notado?
Quando penso na coragem que eu tive de me jogar sem pensar nas paredes do poço, eu sinto como se estivesse muito distante daquela menina, porque agora eu não sei se conseguiria fazer o mesmo.
Como faço pra poder subir esse poço?
Como faço pra enfrentar terrível dor ?
Será que eu um dia conseguirei superar a perda de dois bebês?
Será que eu conseguirei ser forte pra não desistir do meu casamento?
Será que eu conseguirei ter orgulho de mim mesma?
Existem muitos será em minha mente.
Eu penso que devo ir um passo de cada vez, mais esses passos parecem tão pequenos, as vezes eles voltam pra trás, as vezes eu só paraliso e sento no chão da vida.
Me sinto patética, como posso voltar a ser aquela menina corajosa que pulou no poço pra salvar um ente querido?
Será que conseguirei pular no poço pra me salvar?